terça-feira, maio 13, 2008

erros involuntários

Todos nós conhecemos pessoas assim. Pessoas que, mesmo depois de terem sido corrigidas, um sem número de vezes, a propósito do modo como pronunciam uma palavra, continuam ainda assim a usá-la na primitiva forma como a pronunciavam, porventura condicionadas por uma espécie de “a priori” mental, como se a ligação sináptica originária determinasse a aprendizagem do erro, no momento em que a palavra pela primeira vez se incrustou sonoramente nos arcanos do cérebro.
Pronunciar “monopausa”, “póssamos” ou “quaisqueres” parece que faz parte do ADN línguístico de algumas pessoas. Existe, creio, uma certa predisposição para o erro involuntário, a que nenhum de nós está imune.
Aconteceu-me descobrir, recentemente, que durante dois anos, errei sistemática e involuntariamente no emprego que fiz da expressão “a crise da educação”, quer na forma oral quer na forma escrita. Este erro talvez seja justificável, mas ainda assim incomoda. Na aparência, o erro não existe. Mas é real, tão real como os cigarros que consumo enquanto escrevo. No contexto em que usei a dita expressão, deveria ter usado outra : “a crise na educação”. Passo a explicar.
A crise na educação é um ensaio escrito pela filósofa Hannah Arendt – insisto em a rotular como tal, apesar da própria ter recusado o nome e preferir designar-se a si mesma como pensadora – em meados da década de cinquenta do século passado. Publicado pela primeira vez em 1957, com o título The crisis in Education, numa revista americana da especialidade (de que saiu, no mesmo ano, uma versão em alemão), o texto voltou ao prelo, inserido no livro intitulado Between Past and Future: Six Exercices in Political Thought, de 1961. Em 1972 saiu a tradução francesa deste livro com o título La Crise de la Culture, onde pontificava, entre os restantes, o ensaio La crise de l’éducation. A tradução portuguesa, levada a cabo pela filósofa portuguesa Olga Pombo, respeita o original, felizmente. Preto no branco, A crise na educação é o que aparece escrito na página 183 de Entre o Passado e o Futuro, título publicado pela “Relógio D’Água”, em Fevereiro de 2006. Ao longo de dois anos li este título dezenas de vezes, sem exagero. E a ele me referi outras dezenas, no mínimo, sempre a cometer o mesmo erro. Não sei porque carga de água, sempre me referi a este texto com a expressão “crise da educação”. Parace preciosismo e mesquinhez apontar a diferença. Mas não é. Nem pouco mais ou menos. Voltarei a assunto para explicar porquê.

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