quarta-feira, outubro 17, 2007

uma pobreza de governo

Mais coisa menos coisa, um quinto da população portuguesa é pobre. Estes são os dados do INE para 2005. Contas feitas, 2 milhões de portugueses, mais coisa menos coisa, vivem em situação de pobreza monetária, o que significa que têm rendimentos mensais por adulto equivalente – o qual é obtido “dividindo o rendimento líquido de cada família pela sua dimensão em número de adultos equivalentes e o seu valor atribuído a cada membro da família” – inferiores a 360 euros.
O mesmo INE, para o mesmo ano, refere que Portugal é o país da Europa a 25 com maior desigualdade de distribuição de rendimentos. O valor do seu coeficiente é de 38%, numa variação de “0 (quando todos os indivíduos têm igual rendimento) e 100 (quando todo o rendimento se concentra num único indivíduo)”.
De 2005 ao presente ano, se porventura houve alterações, não terão sido para melhor. O aumento da taxa de desemprego, do emprego precário, do custo de vida, o endividamento crescente das famílias, o congelamento das carreiras da função pública, não permitem outra conclusão – a generalidade dos portugueses vive pior hoje do que se vivia há dois anos. Para além dos citados 2 milhões de pobres, mais 2 ou 3 milhões estarão próximos ou a caminho de pisar o risco da pobreza.
Entretanto, o Governo propõe um orçamento para 2008 que penaliza os pensionistas e os deficientes (a maior fatia dos pobres), enfim, os mais desprotegidos. Em termos de repartição do bolo por ministério, a saúde e a educação, ficam na mesma, mais coisa menos coisa, o que, comparativamente com outros ministérios, significa um desinvestimento. Lembram-se do refrão da canção de Sérgio Godinho dos anos setenta? Rezava assim: “a paz, o pão, saúde, educação, só há liberdade a sério quando houver…”E é este um governo socialista chefiado por um PM que apregoa as virtudes da nova esquerda! As suas prioridades falam por si. Quais são as prioridades dos portugueses cada vez mais pobres? Não serão certamente as mesmas.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Tota o devorador de emoções

Há sete meses e pico que ele está a viver cá em casa. O mínimo que eu posso dizer é que a nossa vida mudou como da noite para o dia, ou vice-versa. Alteraram-se os hábitos e as rotinas, mudaram-se os comportamentos e os humores, o nosso pólo magnético rodou 180 º e as coordenadas da nossa existência viraram-se de tal modo do avesso que ainda hoje pergunto a mim mesmo onde pára o eixo das abcissas. O ele a quem me refiro chama-se Tota, tem dez meses, pertence à espécie canina.
O episódio que agora lembro ocorreu há mais ou menos trinta anos. Lembrá-lo hoje surpreende-me pela nitidez dos pormenores, sobretudo porque inúmeros outros vão permanecer na penumbra do esquecimento. Era ao entardecer de um dia igual a tantos outros. Num repente, ouvi o chiar dos pneus de um carro no atrito do asfalto e, de seguida, o som côncavo de um embate. Corri ao local onde se amontoava um magote de pessoas. Por entre pernas, braços, saias e calças avistei o pequeno Boneco estendido na calçada que ladeava a estrada. Contorcia-se no abraço da morte. Um fio de sangue espesso e escuro escorria-lhe do focinho e tingia o branco do calcário. Uma vizinha surgiu numa ânsia do desastre. “Quem foi atropelado?” – perguntou. “Foi o cão da vizinha Albertina” – respondeu-lhe o filho do sapateiro. “Então não foi ninguém? Foi um cão?” – tornou a interrogar desiludida. “Morreu, fodeu-se.” – Sentenciou ela categoricamente. E eu concordei em silêncio.
Menos cruamente, é certo, com um pouco mais de humanidade, sem dúvida, mas ainda assim foi esse o entendimento em relação aos bichos que me acompanhou pela vida fora. Um degrau acima das coisas, mas muitos abaixo das pessoas humanas.
Tudo mudou, no entanto, no dia em que o Tota entrou cá em casa, começando a contar, desde então, como um membro mais da família. À semelhança de um filho que, ao longo da sua meninice e adolescência, vai mudando sucessivamente o tipo de problemas que nos coloca, desafiando a nossa capacidade inventiva e persistência (e muitas vezes torrando-nos a paciência) no sentido de os resolver e tocar as coisas para a frente, o Tota porfia na invenção de situações problemáticas para as quais nenhum de nós se sentia preparado. A fase do xixi e do cocó, estrategicamente depostos pelos cantos da casa, já passou, felizmente. Aprendeu que tal género de dejectos não só não são comestíveis como têm o seu lugar natural de existência. Aprendeu também, para felicidade nossa, a sentar-se quando lho ordenam, a deitar-se ou a dar a patinha se lho exigem, e mesmo, qual número de circo, a erguer-se nas patas traseiras e tornar-se momentaneamente bípede quando ouve pronunciar a palavra “upa!” No entanto, continua muito longe de se tornar humano. Nos últimos dois meses deu-lhe para destruir os objectos mais singulares: óculos, sapatos, sandálias, chinelos, meias, calculadora, esferográficas, almofadas, a ombreira de uma porta, sofá, duas camas caninas, estantes, cadeirões, papéis e mesmo livros. Tudo lhe serve de objecto de brincadeira, sobretudo quando se apanha sozinho em casa. Esta está a transformar-se rapidamente num cenário de ataque de terrorismo. Este tem sido o nosso 11 de Setembro. E o Tota começa a parecer-se com um dos seguidores mais fiéis do Bin Laden. Democráticos como de facto somos, temos sido tolerantes. Mas a tolerância tem limites, como todos muito bem sabemos. Começamos a ponderar enviá-lo para Guantámano. O dilema está a tornar-se de tal modo agudo que quando venho a caminho de casa já sinto o coração aos sobressaltos. Este dilema formula-se assim: nem o Tota se tornou membro da família, nem nós nos tornámos membros da sua matilha. Por estas e por outras, se tivesse um pouco de fé, juro-vos que rezaria diariamente uma oração à virgem canina. Nestas situações não dá jeito nenhum ser ateu.
Termino estas linhas com o testemunho do jornalista Joaquim Fidalgo. Só tenho pena que o Tota, devorador de livros, jornais, esferográficas e resmas de papel, não o possa ler: “um cão gosta de nós e pronto. Não exige, contenta-se com tão pouquinho, com um mimo ou uma atenção, com uma velha bola de ténis, com um pauzinho apanhado na praia. E gosta de nós sem querer saber se somos ricos ou pobres, brancos ou pretos, conhecidos ou anónimos, do Porto ou do Benfica, altos ou baixos, lindos ou feios…Gosta de nós e pronto. E só quer que gostemos dele. Que não lhe façamos mal. Que o tratemos com carinho. Que lhe façamos festas. Que brinquemos com ele. Que o mimemos. Só isso.”E já agora acrescento: sabes bem, Tota, o quanto gostamos de ti.

quarta-feira, setembro 26, 2007

ao sabor do metro

Andar quotidianamente de metro, em Lisboa, é uma oportunidade única para conhecer a cidade, os seus habitantes e utentes, enfim, a sua fauna antropomórfica e o seu ambiente. Ao fim da primeira semana percebem-se os seus ritmos, a intensidade dos seus fluxos e refluxos, os ciclos das suas marés. Ao cabo da segunda aspira-se a sua atmosfera, reconhece-se a idiossincrasia das linhas (azul, vermelha ou amarela), conhecem-se os diferentes congestionamentos das carruagens. No termo da terceira, começa-se a captar os pormenores e a deliciarmo-nos com os quadros de vida que registamos, guardando-os nos escaninhos mais esconsos da memória como se de tesouros se tratasse.
Nos últimos anos (muitos, mais de uma dezena) fui um utilizador esporádico do metro – passavam-se meses que eu não descia aos túneis, não assomava aos buracos de acesso que regurgitam, de tempos a tempos, gente aos magotes. No início deste ano lectivo, decidi mudar os meus hábitos de mobilidade e dar descanso ao automóvel que, nos últimos quinze anos, me conduzia invariavelmente ao meu destino. Escusado será dizer esta mudança foi accionada por motivações de índole diversa, a começar pela subida crescente dos preços da gasolina, prosseguindo com os benefícios que para a saúde andar acarreta, finalizando pela evocação de razões de ordem ecológica (a ordem é aleatória). Seja como for, estou muitíssimo satisfeito com a mudança e só lamento não ter tomado a decisão mais cedo.
Hoje mesmo deparei com dois dos quadros acima referidos. Passo a relatá-los.
O primeiro tem que ver com a versatilidade dos pedintes que povoam as carruagens do metro. Cada um tem o seu estilo próprio, um maneirismo “sui generis” que o define dos pés à cabeça. Têm em comum a cegueira que lhes circunscreveu o horizonte existencial e o projecto de vida. Distinguem-se pelos adereços e pela lenga-lenga cantada com que apelam à compaixão, à misericórdia e mesmo à recôndita culpabilidade dos restantes, os outros que não têm maleitas visíveis, mesmo tendo outras não imediatamente expostas ao olhar disfarçado de terceiros. Do cego-pedinte que hoje cruzou o meu caminho poderei dizer que me espantou pela criatividade. Deslocava-se percutindo o seu pau com um objecto metálico (uma colher?) e acompanhava a música que dele tirava com um linguarejar ritmado que soava a “rapper”. Da próxima vez que o encontrar vou prestar mais atenção à letra e talvez dar-lhe uma moeda.O segundo prende-se com uma observação que fiz há cerca de três anos, quando estava de visita a Londres. Aí deparei-me com inúmeras pessoas que aproveitavam as viagens no “underground” londrino para ler, para devorar “books” de todas as espécies e feitios e, presumo, que versavam sobre as mais diversas matérias. Lembro-me de ter dito que, pela amostra, e comparativamente, os lisboetas se pareciam com símios há pouco tempo saídos da floresta primitiva, a assumir a posição erecta e a dar os primeiros passos na savana. Qual não foi o meu espanto, meus amados compatriotas, quando fui percebendo nestas três derradeiras semanas de assíduo utente (ainda que só hoje consciencializado o fenómeno), que também por cá se lia nas carruagens do metro alfacinha. E não são apenas revistas cor-de-rosa ou o gratuito jornal de tiragens astronómicas o objecto de leitura (também disso se encontra), mas, pasme-se!, livros autênticos, romances, ensaios, poesia, literatura técnica a exigir estudo aturado, persistente e esforço intenso das meninges. Por que desataram a ler os lisboetas, perguntei aos meus botões da camisa. Não obtive resposta. Mas desconfio que nada tem que ver com programas oficiais de incentivo à leitura. Acredito, talvez ingenuamente, que os portugueses se cansaram de tanta injúria aos seus dotes intelectuais, de tanta difamação às suas competências cognitivas, de tão apregoado atraso cultural, e decidiram que ler é uma das maneiras mais eficazes de construir mundos.

terça-feira, setembro 25, 2007

um ministério de contradições

A ministra da educação não pára de nos surpreender. São tantas e tamanhas as contradições, quer ao nível do discurso quer ao nível das decisões, que a tutela que dirige mais merece o nome de Ministério da Contradição Educativa.
A mais recente das contradições (será mesmo a mais recente?) releva de dois discursos produzidos no intervalo de poucos dias. No primeiro a ministra afirma, a propósito dos professores que não obtiveram colocação no presente ano lectivo, que os mesmos não podem ter como expectativa um emprego (não sendo portanto professores) quando o número de alunos tem vindo a diminuir nos últimos anos, razão que, no seu entender, justifica o facto do seu ministério se ter descartado de milhares de docentes. No segundo, a propósito de uma notícia veiculada pelo Diário de Notícias em que se dizia ter o abandono escolar crescido no último ano lectivo, a senhora ministra veio contestar que não, aproveitando para dizer que este ano, pela primeira vez desde há anos, o universo escolar se alargou. Em que ficamos, senhora ministra da educação? No sim ou no sopas? Não se percebe. Se calhar não é para perceber. Deve tratar-se de uma realidade em si mesma contraditória que só uma dialéctica ministerial consegue compreender.
Para além do mais, o autismo e uma certa crispação autoritária que por ali reinam dão que pensar. Parece que a cultura democrática não faz parte dos seus hábitos. Quem quer que ouse ter opiniões diversas é logo diabolizado e excomungado. Os sindicatos, os professores e, mais recentemente a própria DECO, a quem os doutores da 5 de Outubro não reconhecem competência nem credibilidade para ajuizar em matéria de vestígios de amianto que aqueles dizem existir em cerca de 20 escolas portuguesas. Assim vai o exercício da democracia num dos ministérios que mais deveria pugnar por dar o exemplo de autêntica cultura democrática, a qual, como bem se entende, se quer o máximo participativa e aberta ao diálogo com os seus parceiros.

quarta-feira, setembro 19, 2007

"eduquices" na TV

A ministra da educação esteve na última 2ª feira, no programa televisivo "prós e prós", perdão, "prós e contras".
Apresentado e moderado pela jornalista Fátima Campos Ferreira, o formato do programa pressupunha, quer-me parecer, pelo menos a julgar pelo nome, um espaço dedicado ao debate de ideias, à disputa de pontos de vista, à luta verbal, em suma, um espaço agonístico em que os protagonistas se esforçam por argumentar e contra-argumentar, conjecturando aqui, refutando acolá, sempre e sempre com a finalidade de levar a água das suas convicções ao moinho das ideias bem fundamentadas. No entanto, ao fim de cerca de três horas de programa, a sensação que se colhe é que do pressuposto do nome resulta um enorme engano. Os presumíveis oponentes da contenda ideológica afinam quase todos pelo mesmo diapasão, limitando-se esporadicamente a minúsculas escaramuças opinativas, a breves arremedos de crítica. Por que razão tal acontece? Por não termos gente capaz de afiar os gumes das suas lâminas nos coiros do adversário? Também será por isso. Mas não só. Um programa com este formato requeria mais coragem e decisão na escolha dos contendentes. Que diabo! não haverá por aí gente com arcaboiço intelectual suficiente para, em matéria de política educativa, esgrimir argumentos mais verrumantes, sólidos e demolidores? Onde estão os críticos do "eduquês"? Onde param os profissionais do ensino que, no terreno, não se cansam de destilar fel e censurar a actual política do seu ministério tão mal amado? Ou será que tudo não passa de um arranjinho para passar um bom par de horas a ganhar visibilidade televisiva?
O debate foi mau. A ministra mostrou a arrogância e a insensibilidade do costume. Teve até o desplante de sugerir que os professores não estavam zangados com ela (alguns sim, outros não, afirmou, não podemos generalizar). Os tiques de autoritarismo e de crispação, de rispidez e de agressividade, fazem dela não uma dama de ferro mas um sócrates (não o grego) de saias. Mas para pior, muito pior. A uma intervenção do sindicalista Mário Nogueira (sem dúvida, a mais inteligente), decidiu que não tinha comentários a fazer. Mas viu-se-lhe bem no "rictus" facial e no aço do olhar, que só não o fulminou ali mesmo porque ainda não se mata ninguém à distância de um relance de olhos. Nenhum sentido de humor, ausência total de ironia. Apenas crispação e rudeza disfarçada pela cosmética. Nos momentos em que se sentiu acossada no brio profissional, quase perdeu a compostura. Os cabelos desgrenharam e apareceu a imagem da Maga Patalógica que povoou os meus pesadelos de menino. A apresentadora, mesmo tendo tido oportunidades para tal, teve sempre o cuidado de não a beliscar demasiado. Dos membros do painel, uma pasmaceira a puxar ao bocejo e ao tédio. Não cheguei a ver o final. Entretanto, o sono embalou-me para uma outra realidade bem mais real que a televisiva.

sexta-feira, setembro 14, 2007

O governo está verdadeiramente apostado na educação.
Contradizendo as notícias postas a circular pelo DN, segundo o qual «Portugal falhou as metas de redução do abandono escolar. Taxa de jovens que sai precocemente da escola sem completar o 9.º ano subiu de 38,6 % em 2005 para 39,2 % em 2006» - contradizendo estes dados o governo faz anunciar que "o valor deste indicador para o ano de 2007 (que reflecte os resultados escolares de 2006) comunicado ao Eurostat pelo INE é de 36,3 por cento, o que revela uma recuperação assinalável."
Esta parece a velha disputa que o governo tem travado com os sindicatos de professores a propósito dos números de adesão às greves.
A julgar pelo modo como o governo se tem empenhado em distribuir computadores, num número de circo mediático que marcou ininterruptamente uma semana da pré-temporada escolar, apostaria a alma em como o governo está verdadeiramente apostado na educação. O meu receio não é perdê-la (o diabo que a carregue!), o meu receio é nada mais ter de apostar quando surgirem oportunidades sérias de o fazer.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Portugal enlameado

O primeiro-ministro (tal como o presidente da república) recusou-se a receber, num dia, um homem que, do ponto de vista ético e religioso, e na actualidade, é porventura o exemplo mais representativo do que é um ser humano na autêntica acepção da palavra - o Dalai Lama. No outro dia, recebeu Bob Geldof, no contexto da próxima cimeira Europa-África. As motivações da controversa decisão são tão óbvias quanto sórdidas. E sobretudo repletas de significado. A política perdeu o norte da ética. Tal como referiu Paulo Borges, o representante máximo do budismo em Portugal, são os interesses da “real politik” a sobreporem-se aos interesses humanitários. E acrescentou um argumento político decisivo, que só passa despercebido porque vivemos subjugados pelo imperialismo de uma economia de mercado que faz do capitalismo liberal o “credo quia absurdum” do nosso contentamento mesquinho. Dizia o filósofo português ser injustificável trocar a nossa vocação ecuménica e universalista (a nossa riqueza espiritual) pela ilusão de uma pretensa riqueza material e económica. Deste ponto de vista, nunca deixaremos de ser relativamente pobres; do outro, podemos ser absolutamente ricos e marcar uma posição, à escala internacional, na defesa intransigente dos direitos humanos. A luta que travámos por Timor parece ter perdido o sentido. Por que são os timorenses mais humanos que os tibetanos? A escolha dos políticos mais importantes do Portugal actual só não nos envergonha talvez porque estejamos a perder capacidades intrinsecamente humanas, dentre as quais, se destaca a capacidade de lutarmos por ideais e não apenas por interesses.

segunda-feira, setembro 03, 2007

As férias

As férias constituem, para mim, nos últimos anos, uma tentativa nunca de todo conseguida de enganar o tempo, de me furtar ao seu irrevogável transcurso. Há muito tempo que não tenho por divisa o carpe diem. Não consigo enganar-me a mim próprio. O que faço é vestir outras roupagens e encarnar numa personagem com quem não simpatizo em demasia. Terei de aprender a arte da simpatia. Poderia chamar-lhe o infiel jardineiro, penso. A infidelidade é para comigo próprio, e não para com as flores, as árvores e as plantas que vou aprendendo a amar cada vez mais. Se não as trato melhor, é por ignorância, nunca por desleixo. Bem sei que a ignorância é como erva daninha. Praga danada que não se extirpa a não ser com paciência e trabalho. Falta-me porventura a primeira destas virtudes. A obra é longa e a vida breve. Mais uma vez a consciência trágica do tempo. É precisamente isso que busco nessa intimidade vegetal - a evasão da temporalidade. Outrora as férias não me soavam a esta busca insana do tempo perdido e eu não sabia ainda amar rosas ou o azevinheiro. Nas férias era apenas eu. Nem pensava sequer no infiel jardineiro que me veste as horas do estio maduro.

terça-feira, julho 31, 2007

o país está em banho-maria

O país está a banhos. Do Algarve ao Minho, as praias enchem-se de magotes de portugueses que, ano após ano, vão aperfeiçoando a sua destreza no seu desporto favorito – dar banho à minhoca ou ao mexilhão. À medida da bolsa de cada um, escolhem-se “resorts” de luxo com praias privativas ou então os transportes públicos que conduzem multidões para as “praias dos tesos”.
Entretanto, os “media” adaptam as suas estratégias ao apetite dos consumidores em época de veraneio. Aparecerão inevitavelmente as notícias dos incêndios (lembro-me que até o famigerado incêndio do Chiado ocorreu num Agosto para mim já longínquo), dos roubos de gado numa qualquer aldeia do interior, dos mortos nas estradas assassinas, das transferências milionárias dos jogadores afortunados (agora menos afortunados, coitados, por terem de pagar mais impostos). Para já não falar de notícias dos desempregados, dos sem-abrigo, dos miseráveis a quem a sorte não bafejou e dos desvalidos a quem a vida pregou a mais negra das partidas. Tudo isto para que o banhista que há em cada um de nós se julgue imune às tragédias alheias e se sinta, na comiseração convencional, o mais sortudo dos mortais. De assuntos políticos pouco se falará (os assuntos sérios não se coadunam com os banhos de Verão). Em Setembro logo se vê. O país está em banho-maria. Bem merece quem ainda não é defunto.

domingo, julho 29, 2007

rouxinol faduncho

A grelha de Verão da RTP1 está verdadeiramente transfigurada, para melhor. Aos sábados passa, em horário nobre, um programa intitulado Rouxinol Faduncho Rodoviário. O que se exibe é parte de digressão feita pelo cantor Marco Horácio – e ainda há quem pense que um nome não predestina os feitos de quem o ostenta – por terras portuguesas, que é uma espécie de prolegómenos ao êxito futuro por que passaram os mais inspirados cançonetistas nacionais. O repertório do artista conta já com sucessos de registo, tais como Dona Maroca, Fado das Barracas, Tasca do Zé Tinhoso e o famosíssimo Cães de Loiça. O pseudónimo artístico é uma delícia, pois que se trata de um oximoro nada ocasional – Rouxinol Faduncho. Relembre-se que faduncho significa fado ligeiro ou sem qualidade, o que contradiz a natureza da ave. O estilo do autor enquadra-se na categoria de fado humorístico e alguns dos seus tiques de cantor fazem lembrar o melhor do saudoso Herman José. O que nos é apresentado pelo autor é o kitsch na única expressão que aprecio: a do foleiro que, pela sua mesma manifestação, nos conduz à crítica por via do riso. Uma Crítica da Razão Risível que nenhum filósofo, que eu conheça, soube ainda inventar. Vale a pena pesquisar do You Tube.

quinta-feira, julho 26, 2007

medo

Manuel Alegre recusa-se a ficar calado. O clima de medo que se gerou nos últimos meses a propósito dos “pontuais” mas repetidos casos “que têm em comum a delação e a confusão entre lealdade e subserviência” levaram o histórico deputado do PS a fazer ouvir a sua voz, uma vez mais, contra o “clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa história, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE”. Alegre coloca os valores da liberdade e da democracia acima dos valores do partido. Lembra que “quem se cala perante a delação e o abuso está a inculcar o medo. Está a mutilar a sua liberdade e a ameaçar a liberdade dos outros”. Acrescenta, procurando caracterizar o medo. “Medo de falar e de tomar livremente posição. Um medo resultante da dependência e de uma forma de vida partidária reduzida a seguir os vencedores (nacionais ou locais) para assim conquistar ou não perder posições (ou empregos). Medo de pensar pela própria cabeça, medo de discordar, medo de não ser completamente alinhado”. E termina deste modo, não sem antes referir as suas discordâncias (muitas) com a linha de rumo que o governo tem tomado: “Agora e sempre contra o medo, pela liberdade.”

Outro histórico do PS e seu fundador, António Arnaut, em entrevista à revista Visão hoje, descreve assim a geração que actualmente está no poder: “É um produto das circunstâncias. Noto falta de cultura cívica. É gente sem reflexão sobre os comportamentos, a arte, a literatura e a história do nosso povo. A cultura é uma sabedoria que se recolhe da experiência vivida. Muitos deles não têm uma ideia para Portugal, não conhecem o país. Vivem do imediatismo, da conquista do poder. Conquistado, vivem para aguentá-lo. Esta geração vale-se mais da astúcia do que da seriedade. E aprendeu os ensinamentos de Maquiavel.” À pergunta se assistimos hoje a um Portugal amordaçado, responde: “Algumas pessoas acomodam-se, querem manter os seus poderes e tendem a bajular o chefe. (…) Um país sem humor não tem futuro. Um tipo com cultura tem humor! Basta ter lido o Eça.”

O filósofo José Gil, no seu “best-seller” Portugal, Hoje: O Medo de Existir, cita Hannah Arendt: “a tirania cria um deserto de medo e de suspeita, sem leis nem barreiras. Este deserto não é de modo nenhum um espaço vital para a liberdade, mas deixa ainda algum lugar aos movimentos e acções que o medo e a suspeita inspiram aos seus habitantes”.

Alexandre O’Neill escreveu um poema sobre o medo:

POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos a ratos

Sim
a ratos








quarta-feira, julho 25, 2007

do iberismo e de saramago

Confesso que não li a entrevista que José Saramago deu ao Diário de Notícias, no passado dia 15. A minha cabeça está, de momento, ocupada com outras coisas, uma das quais, bem mais importante para mim, a preparação das férias que se avizinham. Contudo, acho o tema da entrevista aliciante. Como tal, pensei escrever algumas palavras sobre o assunto. Já percebi que a minha opinião vai em contra mão. Uma busca rápida na net com as palavras “José Saramago” e “iberismo” não dá margem para dúvidas. Vociferam-se impropérios ao Nobel, clama-se “aqui d’el rei”, grita-se “Olivença é nossa!”. No reino da blogosfera, afina-se a voz pelo coro dos anti-iberistas. Lembra-se o ditado “de Espanha nem bom vento, nem bom casamento” para apregoar alto e bom som o nacionalismo luso.
Tudo isto por que o homem, uma vez mais, voltou, em estilo provocatório, a enunciar uma tese por si próprio há muito tempo defendida, pelo menos desde a Jangada de Pedra. No romance a metáfora é clara: homens e mulheres navegam pelo mar fora na mesma jangada. Mas quantos o leram? Quantos entenderam a mensagem? A diferença agora é que não se trata de um romance, de um exercício ficcional, nem do escritor. É o homem José Saramago, casado com uma espanhola, vivendo à 14 anos em Lanzarote, em terras do arqui-inimigo, que tem a ousadia já não de propor o iberismo como utopia, mas de prognosticar o fim do país naturalmente é o seu. Parece que afirma que Portugal acabará por se tornar uma província de Espanha, tomando esta o mítico nome Ibéria. Consta que defende ter a nação lusa tudo a ganhar com isso em termos de desenvolvimento, caso houvesse uma “integração territorial, administrativa e estrutural” com nuestros hermanos. Chega mesmo a ter o desplante de sugerir que os portugueses estão prontos a aceitar de coração aberto o enlace ibérico. Estarão deveras? Por que não fazer um referendo, já que estamos em maré deles? Eu cá alinho na ideia.
A ideia não é nova, vem do tempo dos afonsinos e alguns dos escritores saídos da fornada da geração de 70 argumentavam a favor dela. Os tempos hoje são outros, os da globalização e da Europa politicamente unida. No meu pobre entendimento, os tempos que correm, correm justamente de feição à utopia escrevinhada na Jangada de Pedra. Porquê? Por que a integração nos tornaria mais fortes no jogo da política internacional. Mais fortes não apenas em termos político-económicos, mas também no que concerne ao sócio-cultural. Creio que nos tornaríamos uma força peninsular de respeito no interior da Europa dos trinta ou trinta e cinco. Lutaríamos ombro a ombro com o Reino Unido, a Alemanha e a França. O que perderíamos? Vagos sentimentos sebastianistas e um feriado, o da Restauração. Não seríamos os mesmos. Obviamente que não. Mas nunca somos os mesmos. Seríamos diferentes? É claro. Seríamos melhores? Não tenho dúvidas.
É evidente que os preconceitos históricos nos impedem de pensar friamente no assunto. Talvez daqui a um século nos estejamos a rir de tais preconceitos serôdios, como nos rimos hoje dos nossos preconceitos racistas ou sexuais passados. Ou não é o caso?

quinta-feira, julho 12, 2007

S.J.M.D.

Os professores portugueses que se cuidem! Para além do que muito padecem (desautorização, injúrias, sevícias e o diabo a sete), começam a ser vítimas de uma recente epidemia mortal: o Síndroma da Juntas Médicas Doutrinadas (S.J.M.D.). Parece que deram em morrer de cancro e em serviço. Estóicos (o estoicismo é uma ética de tempos de decadência disfarçada). A propósito dos casos vindos a público, a Ministra da Educação lava as mãos como Pilatos. Não é matéria do seu pelouro nem da sua competência. O Primeiro-Ministro, mais sensato, diz-se chocado como aliás toda a opinião pública. Não contribuíram ambos para indispor a opinião pública contra os professores? Não terão dado uma mãozinha perversa às Juntas Médicas que, nos últimos tempos, desataram a indeferir pedidos mais do que justificados de reformas antecipadas? Não acredito! Mas o Primeiro-Ministro garante-se chocado com as notícias das mortes anunciadas e promete mudanças. Medidas urgentes. Auditoria às Juntas Médicas e alteração na legislação que a lhes dizem respeito. Por que razão não acredito, senhor Primeiro-Ministro? Entretanto, os professores que encomendem já as suas urnas funerárias. E paguem antecipadamente o funeral póstumo a crédito. Aproveitem. Depois de mortos e enterrados, ninguém lhes cobrará um cêntimo.

domingo das urnas

No domingo, vamos a votos outra vez. Vamos? Não sei se irei. Pela primeira vez, desde o início dos anos 80, estou indeciso. Esclareço. A minha indecisão não se cola à escolha dos candidatos ou ao voto em branco, o que já me aconteceu (nunca a 4 dias das eleições, é certo). Não está associada a um hipotético fim-de-semana de corpo estirado sobre as areias morenas de qualquer praia algarvia. Não se prende com férias no estrangeiro ou no Portugal profundo. A minha indecisão – que será a de muitos lisboetas, creio – tem que ver com a natureza dos candidatos. Desacredito de todos. Do imponderável António Costa ao indescritível Carmona Rodrigues, passando pelo insubornável Sá Fernandes, etc. Se for às urnas (tétrico, bem sei), por imperativo ético ou cívico, talvez vote na imprevisível Helena Roseta. Sem nenhuma convicção, acrescento. Um único argumento dela quase me convence. Afirma: “em casas pobres as mulheres é que gerem o dinheiro. É um facto.” Mas como dizia o filósofo “não há factos, apenas interpretação de factos”. E a minha interpretação conduz-me a duas observações e uma pergunta. Primeiro, não gerem o dinheiro mas a penúria dele; segundo, é a experiência da pobreza que lhes ensina a correcta gestão da escassez; terceiro, que experiência tem a arquitecta da pobreza? Dúvidas e mais dúvidas. Por isso, talvez no domingo não vá a votos. Há sempre uma primeira vez. A acção política não é sinónima de ir às urnas. Um funeral sim. Sinceramente, não me apetece acompanhar esse morto à sua última morada.

terça-feira, julho 03, 2007

o filósofo andarilho ou o viajante e a sua sombra

A leitura de algumas cartas de Nietzsche – que cobrem um intervalo temporal de vinte anos, isto é desde o período em que conhece Richard Wagner, em Novembro de 1968, até aos primeiros dias de 1889, imediatamente antes de sucumbir à loucura – provocou em mim uma amálgama de sentimentos contraditórios, da quase exaltação à quase angústia. Homem íntegro e absolutamente coerente com as suas convicções, amigo incondicional e inimigo impiedoso, generoso na dádiva extrema de si próprio, desbravador do insondável da alma humana, “dinamite” como de definiu um dia. Foi sempre um pensador no fio da navalha, implacável e acerado no bisturi da crítica, que o haveria de conduzir à mais radical das suspeitas – a de que a civilização ocidental, no somatório dos seus vinte e cinco séculos, assenta no erro terrível que degenerou em decadência e niilismo, esse veneno que asfixia o homem e produz uma cultura anémica. Jovem catedrático em filologia clássica, leccionou durante dez anos em Basileia, até que a doença, o sofrimento e a descrença o fizeram abandonar os círculos académicos, em 1878, e enveredar pela aventura quase solitária de uma vida errante. Passou a ser, a partir de então, o Viajante e a sua sombra. Daí para diante, o filósofo andarilho produziu grande parte da sua obra escrevendo a lápis em caderninhos pequenos, enquanto marchava. O vigor da marcha que o conduzia aos cumes, que o levava a pelos bosques e vales verdejantes, esse mesmo vigor cadenciava os seus pensamentos, servia de dínamo às ideias e intuições fulgurantes que ia registando com esforço. Em carta endereçada a seu amigo Peter Gast, de 5 de Outubro de 1879, num dos períodos mais sofridos da sua existência atribulada, escrevia: “Com excepção de algumas linhas, o total foi concebido ao ritmo da marcha e esboçado com lápis em seis caderninhos: a transcrição dava-me náuseas. Tive de deixar passar uma vintena de encadeamentos mais extensos, desafortunadamente alguns dos mais essenciais, porque nunca tinha tempo suficiente para extrai-los da horrível garatuja produzida a lápis: o que já me sucedeu o Verão passado. Depois disso, o encadeamento dos pensamentos escapa à minha memória: com efeito, tenho de arrebatar os minutos e os quartos de hora à “energia do cérebro” de que você fala, arrancando-os de um cérebro que sofre. Por vezes, parece-me que não poderei fazê-lo jamais. Leio a cópia e custa-me entender-me a mim mesmo, de tão angustiada que está a minha cabeça.” Dos primeiros dias de Janeiro de 1889 até meados de Agosto de 1900, o filósofo do Assim falava Zaratustra viveu submerso por uma loucura porventura de origem congénita.

domingo, julho 01, 2007

"Não deixes que te metam patranhas na cabeça"

Às vezes, quando estou cansado, cansado do dia a dia que parece sem sentido, cansado das horas desditosas, cansado das promessas por cumprir, da retórica que nos enreda numa teia laboriosamente tecida pró engano, da conversa oca dos que falam muito porque nada têm para dizer, cansado acima de tudo por ser a hora dos cansaços, como diz o poeta, recosto-me no sofá e leio um poema. Sei o que ele me traz – o vigor de uma utopia íntima e a esperança de um renascer. Hoje foi este o poema que o acaso escolheu para mim. Ofereço-vo-lo. Pegai e lede-o, pois é sem custos.

LOUVOR DO APRENDER
Aprende o mais simples! Pra aqueles
Cujo tempo chegou
Nunca é tarde demais!
Aprende o abc, não chega, mas
Aprende-o! E não te enfades!
Começa! Tens de saber tudo!
Tens de tomar a chefia!

Aprende, homem do asilo!
Aprende, homem na prisão!
Aprende, mulher na cozinha!
Aprende, sexagenária!
Tens de tomar a chefia!

Frequenta a escola, homem sem casa!
Arranja saber, homem com frio!
Faminto, pega no livro: é uma arma.
Tens de tomar a chefia.

Não te acanhes de perguntar, companheiro!
Não deixes que te metam patranhas na cabeça:
Vê c’os teus próprios olhos!
O que tu mesmo não sabes
Não o sabes.
Verifica a conta:
És tu que a pagas.
Põe o dedo em cada parcela,
Pergunta: Como aparece isto aqui?
Tens de tomar a chefia.

Bertolt Brecht

Depois de o ler, dei comigo a pensar – quanto mais não vale este poema do que todas as reformas educativas e todos as iniciativas “Novas oportunidades”. Só é pena que haja pouca gente a dar por isso. Faço coro com Brecht: "não deixes que te metam patranhas na cabeça".

O seu a seu dono


Ninguém me convence do contrário. Existe certamente um qualquer princípio osmótico que filia umbilicalmente os cães a seus donos. Não. Não se trata apenas da osmose dos traços de carácter. Isso é evidente. Donos rabugentos, conflituosos ou rufias geram, na maioria dos casos, cães desconfiados, agressivos e perigosos. Do que se trata é de um tipo de identificação plástica que faz com que os cães ou as cadelas – há que referir ambos em prol do discurso politicamente correcto – assumam, muitas vezes, uma similitude flagrante com as pessoas que os têm a seu cargo. Que provas tenho eu disso? Inúmeras, como devem imaginar, agora que me tornei um assíduo frequentador de locais em que os donos levam os seus canídeos a passear. Nunca antes imaginei fazer amizades com pessoas estranhas. Amizades é porventura uma palavra forte, excessiva. Em abono da verdade não lhe chamarei tal. Afinidades talvez. Afinidades caninas. São precisamente estas que me põem em contacto com gente de toda a espécie e figura: a senhora de cabelo grisalho e encaracolado que passeava pela trela o seu sósia caniche; o jovem imberbe e borbulhento arrastava o seu rafeiro também ele cravejado de pústulas faciais; a adolescente escanzelada de anoréctica que vigiava sofregamente a sua cadela esgalgada; a quarentona nutrida de carnes e de olheiras carregadas que cumulava de beijos lambidos o seu terrier com auréolas negras ao redor dos olhos; o indivíduo com ar de GNR e bochechas a pender devido à força gravítica que fustigava verbalmente o seu buldogue de beiçolas caídas. Enfim, só tenho pena de não andar munido de uma máquina fotográfica para retratar com objectividade o que acabo de descrever. Paciência. O decoro não o permite, nem a boa educação. O meu cão, felizmente, tem um ar jovial, alegre, bem disposto, dotado de bem porte e pêlo luzidio. Pela descrição, devem adivinhar a minha figura, modéstia à parte. Fiel à minha convicção, coloquei uma fotografia do meu “Tota” no topo da página do meu blogue.

sexta-feira, junho 29, 2007

Doutores e Engenheiros

Aqui há uns anos – lembram-se? – havia um concurso televisivo que passava em não sei que canal com o pomposo título Doutores e Engenheiros. Não me recordo mais nada (não tenho tempo nem quero pesquisar). Não sei que apresentador(es) o apresentava(m), nem tenho a mínima noção do seu formato e do seu conteúdo. Tenho sim a impressão de que era pró mauzinho. Que me perdoem os que não concordam comigo e têm uma memória viva do dito. Há quem afirme que gostos não se discutem. Acho que essa opinião é discutível, mas não vem agora ao caso fazê-lo. O que vem ao caso é eu considerar que existem algumas semelhanças entre o tal concurso e o actual governo, a começar pelo título.
Alguns dos seus membros não é doutor ou engenheiro? Nem um. Alguns de vós replicarão que não senhor, que isso de ser doutor ou engenheiro tem muito que se lhe diga, não é para qualquer borra-botas, lembrando talvez as recentes polémicas com as habilitações académicas do Primeiro Ministro. Ora, balelas! Deixem-se de preciosismos. Ninguém ou quase ninguém faz caso disso. Não é corrente a auxiliar educativa (sra. "Contina") chamar ao professor de ginástica – sempre gostei da expressão – sr. Doutor? Não é hábito da funcionária do bar de um instituto qualquer dizer ao licenciado em engenharia: “sr. Engenheiro, esqueceu-se do troco”? Adiante, que se faz tarde.
Dir-me-ão, no pressuposto de que não terei resposta: mas afinal que demais parecenças se poderão apresentar? Respondo com uma palavra: mauzinho. A única diferença é que os doutores e engenheiros do referido concurso não tinham consequências práticas para a coisa pública (ou teriam mínimas), ao passo que os doutores e engenheiros do governo têm-no e de que maneira. No que diz respeito ao formato governativo, respigarei apenas algumas características: arrogância, prepotência, autoritarismo, autismo e instinto pressecutório e intolerância. Para dar conteúdo a este formato basta que nos lembremos de exemplos que corporifiquem as características enunciadas. Lembremos os casos recentes da OTA, do professor punido pela piada jocosa, do nosso colega bloguista que ousou questionar por escrito as habilitações do Primeiro Ministro e, por último, a fulana exonerada por ter deixado que una cartazes insultuosos manchassem a figura política do Ministro da Saúde. Parece que alguns ministros e seus sequazes não toleram a crítica e lidam mal com a liberdade de expressão, sobretudo quando esta se reveste de um tom sarcástico e provocatório. Pobres coitados, que não sabem rir-se de si próprios! – “Ai dos mestres que não sabem rir-se de si próprios” dizia Nietzsche. Para todos eles recomendo um manguito à Zé-povinho, que tenho como uma saudação que, do túmulo, lhes envia o grande Rafael Bordalo Pinheiro. Já agora, leiam o Eça e assistam a algumas das representações vicentinas. Cultivem o riso e a ironia, mesmo quando pela manhã se enxergam ao espelho. Que bem que faria a essas personalidades crispadas! E à democracia.

domingo, junho 24, 2007

Num país de brandos costumes e de atitude indiferentista em relação a assuntos de cidadania participativa, uma questão importante seria a de saber que ideia têm os portugueses do Estado. Não confundamos as coisas. Não se trata de saber qual é a opinião que os cidadãos lusos têm, hoje por hoje, dos políticos em geral e do governo em particular. Isso sabe-se. Qualquer sondagem nos transmite com facilidade esses dados. Melhor seria ficarmos a saber o conhecimento médio que temos em matéria de política. Suponho que seja sofrível, para não dizer medíocre. Mas creio que nenhuma sondagem ou estudo de opinião nos diga, a propósito, nada de significativo.
O que é o Estado? Será o Estado sinónimo do governo? O que caracteriza um regime democrático? Que distingue democracia directa de democracia representativa? Será aquela possível na actualidade? Que outros regimes políticos existem para além da democracia? Por que razão é a democracia preferível? Quais as debilidades do regime democrático? O que distingue, no essencial, cidadania passiva de cidadania activa ou participativa? É a democracia possível para além do sistema partidário? Eis algumas questões - outras seriam igualmente importantes - com que gostaria de confrontar a maioria dos portugueses. Porquê? Para avaliar a sua consciência política. E dessa avaliação tirar ilações. Talvez venha a ser necessário introduzir nos "curricula" escolares, como obrigatória, uma disciplina de cidadania política. Lembro que após o 25 de Abril houve uma disciplina de Introdução à Política. Foi ela que me permitiu ter algumas noções básicas da matéria em questão.
Dizia Aristóteles ser o homem um animal político. Esta identidade é hoje renegada ou apenas lembrada para a aplicar a alguns políticos da nossa praça. Ao olhar para a nossa gente do presente e do amanhã, parece-me antes sermos fundamentalmente animais apolíticos, o que, na opinião de Aristóteles significaria sermos animais ou deuses. Da a impossibilidade de sermos deuses, resta-nos a animalidade.

quarta-feira, junho 13, 2007

O governo começa a ceder. A frase encerra hoje uma opinião generalizada. Comentadores, jornalistas e fazedores de opinião, quase sem excepção, afinam a voz neste coro. Apontam como sinais da cedência, fundamentalmente, a morosidade das prometidas reformas da Administração Pública e a recente hesitação quanto à localização do futuro aeroporto. Argumentam que as razões dela se devem quer à proximidade da presidência portuguesa da União Europeia, quer ao facto de termos entrado na segunda metade deste ciclo legislativo, quer ainda ao fim do estado de graça governativo. Talvez tenham razão. Mas é bom não esquecer outras evidências. O caso da licenciatura de Sócrates - terá provocado mais mossa do que o previsto? -, os dislates verbais de alguns ministros, a teimosia e a inépcia de outros, e sobretudo o tom de arrogância e de autismo democrático com que se têm procurado impor medidas impopulares. Se lhes acrescentarmos o progressivo e alargado empobrecimento do cidadão comum e a sensação de injustiça social que se adensa como nevoeiro em manhã fria e húmida, temos certamente o cenário de um desconforto que invade hoje por hoje a maioria dos portugueses.
Tenho para mim que o governo começou a ceder por dentro, não nas últimas semanas, mas a partir do momento em que começou a somar derrotas eleitorais, em que o Primeiro Ministro teimou em manter no executivo ministros sem a mínima capacidade. Quando se fechou em si próprio e não teve a sensibilidade necessária nem para dialogar com os seus parceiros negociais nem para tomar o pulso ao povo a tempo e horas (dialogar e mostrar compreensão nem sempre é sinónimo de cedência).
A força que o governo exibiu teve sempre apenas uma direcção: as populações mais pobres ou com menos poder reivindicativo: fechou maternidades e escolas no interior, aniquilou a moral de uma classe fraca e desprotegida - os professores. Nunca se mostrou capaz de confrontar os poderosos e aqueles que melhor instalados estão na vida: a banca, os grandes empresários, os juízes, etc. Ora, os mitos - como o do Robin dos Bosques - são eternos, justamente porque simbolizam a luta contra os poderosos e o legítimo anseio de justiça. O governo não soube, não quis ou não pode protagonizar essa luta e esse anseio. Pelo contrário, adoptou políticas que renegam uma esquerda que se pretendia moderna. Falhou o alvo, na sua míopia governativa. Mesmo ganhando as próximas eleições para a Câmara de Lisboa, a vitória, por escassa, soará a mais uma derrota. Assim, terá o que merece: o descrédito e a desconfiança. Pior que isso - o autodescrédito e a autodesconfiança começam a minar o espírito de um governo que se apelidou de reformista. O melhor é reformar-se. Ou então reformar a sua visão política e mudar de política, que é como quem diz mudar de vida.